| Brincadeiras, diálogos e aprendizados na praça do bairro |
Conhecer as experiências das crianças que atendemos na instituição CESEI RAIO DE LUZ nos dá oportunidade de compreendê-las melhor, levando em consideração as vivências que elas têm em outros espaços sócio-culturais. Sentir essa necessidade, de sair da nossa zona de conforto para lançar um olhar sobre os territórios por onde trafegam as mais diversas infâncias, torna-se essencial para aprimorar o trabalho dos que ousam ser Educadores.
Nas palavras de Émile Durkheim, “é preciso sentir a necessidade da experiência, da observação, ou seja, a necessidade de sair de nós próprios para aceder à escola das coisas, se as queremos conhecer e compreender.” Foi com esse objetivo que numa tarde ensolarada de domingo fomos ao bairro Novo Horizonte para observar o comportamento de crianças em espaços fora da escola.
Andamos pelas ruas do bairro e vimos que crianças interagiram com outras crianças e com os demais adultos nas calçadas onde já havia sombra. Percebemos que algumas crianças estavam descalças brincando de bola (pelada) de bolinha de sabão, conversando entre si e assistindo quatro mulheres que brincavam de baralho. Por ser um bairro de periferia, as casas populares possuem poucos cômodos e espaço mínimo de quintal fazendo com que as calçadas e as ruas se tornem um prolongamento das casas.
| Neste bairro alguns adolescentes utilizam calçadas e ruas como um prolongamento dos quintais |
De acordo com alguns relatos de mães o bairro não oferece opções de lazer para as famílias, fazendo com que o único local considerado por elas como espaço de lazer mais frequentado seja a igreja. Isso fica evidente numa gravação, em que a mãe responde que ir à igreja é a atividade principal no fim de semana, e a criança repete.
Mesmo sem opções de lugares para lazer, as crianças brincam em vários espaços do bairro e de diferentes maneiras, criam formas variadas de brincar uma mesma brincadeira, de confeccionar determinados brinquedos e narram de modos distintos os brinquedos feitos por eles. Isso deixa claro a influência de suas vivências na cultura lúdica infantil.
A incursão por esses espaços nos fez ver e registrar situações significativas que colaboram para formar a consciência da criança. O exercício da autonomia, a prática da solidariedade, a liberdade para explorar o espaço geográfico, a experiência concreta, o exemplo dos mais velhos, como chutar um montinho de areia para saber a direção do vento ao empinar a pipa, são aprendizagens que moldam a sua identidade enquanto sujeito histórico e social. Florestan Fernandes ressalta o valor dessas experiências na interação e convivência em sociedade: “Afirmo que iniciei a minha aprendizagem sociológica aos seis anos, quando precisei ganhar a vida como se fosse um adulto e penetrei, pelas vias da experiência concreta, no conhecimento do que é a convivência humana e a sociedade.”
Por Eliziane Valadares e Karla Nascimento
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